Frutos da Insônia

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    Stuart
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    Frutos da Insônia

    Mensagem por Stuart em Seg Out 04, 2010 1:37 pm

    Como o próprio título já diz. Os "Frutos da Insônia", são as histórias que se passam na minha cabeça louca durante as noites em que perco o sono.
    Como não tenho o que fazer, passo-as para o papel até o sono bater novamente...

    Eis um de meus "contos":


    Diálogo

    - Olá você!
    - Oh... Estás a falar comigo?
    - Claro, tu mesmo, que me encaras a vários minutos.
    - Me desculpe, acho que acabei por me encantar com tanta beleza.
    - Não há problema! Já me acostumei com os olhares de tantas pessoas, algumas vezes chega até a me constranger. Mas diga-me, o que lhe incomoda tanto? Observavas-me com um olhar tão aflito...
    - Ah sim, são apenas pequenas complicações da vida que me distraem da realidade. Mas não te preocupas com isso! Conte-me mais sobre tu... Quase todos que conheço são encantados com vossa beleza. E as meninas então... ah... são todas apaixonadas por ti! Como consegues tal proeza? Conte-me! Gostaria tanto de saber!
    - Oras, é algo natural, já nasci assim. Mas não gosto de receber olhares tristes e distraídos como o teu. Sinto vontade de me esconder, pois às vezes parece que pioro vossos sentimentos...
    - Não! Não é verdade, aliviaste-nos quando desviamos os olhares para ti.
    - Oh! Isso é uma surpresa. Saiba que tenho plena convicção e orgulho de minha beleza! Tem mesmo dias que gosto de aparecer escandalosamente para todos, gosto que percebam que estou aqui, gosto que me observem. Porém tem dias que a timidez fala mais alto e eu não chamo tanta atenção, ou até mesmo perco a vontade de aparecer, prefiro ficar na companhia de meu amigo durante o dia.
    - Teu amigo?
    - Claro! Tu conheces meu amigo, aquele grandão que nunca sai durante as noites... Sabe, ele também é de uma beleza extraordinária, porém as pessoas não conseguem perceber. Ele não atrai tantos olhares como eu! E ainda é muito protetor e ciumento, são raras as vezes que permite que eu me mostre durante o dia. Todas as noites eu devo esconder-me dele para que possa sair.
    - Mas isso não é justo! Tu não fazes nada a respeito?
    - Claro que não... Já viste o tamanho e a força dele? Durante os dias que ele permite que eu saia quase ninguém me nota! São raras as vezes que eu consigo me impor e ofuscá-lo. Mas são essas poucas vezes que valem a pena! Não há uma pessoa que não note minha bela presença durante o dia nessa ocasião! Porém, logo ele me expulsa e todos me esquecem novamente...
    - Percebo que gostas muito de atenção. Eu já lhe observei certas vezes durante o dia. Tua beleza é tão grandiosa como a noite, porém não chamas tanta atenção.
    - Exatamente disso que estou falando. Ninguém me dá a devida atenção justamente por causa de meu amigo egoísta! Ele quer o dia todo para ele. Mas isso não é ruim! Pelo contrário, sua beleza permite que vossas vidas sejam mais alegres. Não é mesmo?
    - Com certeza! Se não fosse por ele, nossos dias seriam mais deprimentes. Agradeça a ele por mim!
    - Oh, não te preocupes, lá vem ele. Agradeça você mesmo! Agora eu preciso ir...
    - Mas já? Por que não ficas mais um pouco?
    - Já lhe falei meu pequeno, esse meu amigo é muito ciumento... Ele não pode perceber que eu saí sem ele. Agora que ele está chegando significa que eu devo ir!
    - Tudo bem então. Espero lhe encontrar novamente essa noite.
    - Estarei bem aqui! E eu espero que tua dor melhore. Tenhas um bom dia!
    - E você uma boa noite!... Ah, olá Sol! Estávamos falando sobre ti agora mesmo...


    ~>Stuart.


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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Arya Garret em Seg Out 04, 2010 2:33 pm

    Nossa insonia é tenso...
    A gente inventa cada coisa medonha.
    Uma eu tava sem sono nenhum era 5:00 da madrugada, começei a misturar um monte de palavras até chegar a conclusão, que pinguim + ursos resultava em pingursos....nem sei de onde saem essas coisas.
    O pior é que quando consegui dormir, sonhei que tinha batido no Silvio Santos, e nem fui presa.
    Não o que é pior, com insonia ou sem ela...
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Angela Bárbara em Seg Out 04, 2010 2:40 pm

    Temcada coisa estranha, bizarra, medonha, que se escreve a essas horas ^^.
    Sol meninu mt mau Mad
    Arya, eu também teria batido no Silvio Santos, acho q nao gte prenderam pq todos queriam ter a sua coragem de bater nele :p rsrsr


    Última edição por Angela Bárbara em Seg Out 04, 2010 2:44 pm, editado 1 vez(es)
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Arya Garret em Seg Out 04, 2010 2:42 pm

    HUSAHSAUASHUAA verdade, o Sol é mal.
    Mas ficou bem legal a história^^
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Angela Bárbara em Seg Out 04, 2010 7:30 pm

    Posta outros contos?
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Arya Garret em Ter Out 05, 2010 12:33 pm

    Ele vai ter que ficar com mais insonia, pra continuar escrevendo XD
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Angela Bárbara em Ter Out 05, 2010 4:04 pm

    então vamos torcer pra ele ficar sem dormir uns dias Very Happy
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Stuart em Ter Fev 01, 2011 12:11 pm

    MEDO – PARTE 1


    Não estava chovendo, pelo menos não como uma tempestade, apenas uma garoa. O céu despejava pequenas gotas d’água sob a calçada na madrugada daquele dia.
    O rapaz acabava de sair de seu escritório, verificou se alguém o observava dos dois lados da rua e, rapidamente, como num desespero para sair dali, trancou a porta do prédio e pôs-se a caminhar em direção ao seu carro, estacionado a apenas duas quadras de onde estava.
    Maldito dia onde não encontrou vagas por perto. Caminhar nesse horário por aquela rua era perigoso demais.
    Enquanto caminhava, mantinha toda sua atenção em seu redor, caso enxergasse alguém suspeito, correria de volta para o escritório.
    Não apareceu ninguém.
    Perto do carro, enfiou a mão por dentro de seu sobretudo e deixou a chave de seu Volvo em mãos, a apenas alguns passos do carro, surgiram três homens na esquina adiante.
    O frio em sua barriga deixou-o em estado de pânico. Apressou o passo e desativou o alarme do carro. Pensou que nada ia acontecer.
    Bem... Estava enganado.
    Ao momento em que os faróis do carro piscaram, os homens no outro canto da rua correram em sua direção. O pânico fala mais alto e a adrenalina é liberada. O rapaz tentou abrir a porta do carro e enfiar-se dentro dele, mas assim que sua perna levantou-se para entrar, uma mão puxou-o pelo ombro jogando para fora, no meio da rua.
    - Belo carro o seu! – Disse o homem que o puxara. – Vamo, agora levanta! Tu vai com a gente!
    - Não! SOCORRO! ALGUÉM ME AJUDA! – Era o que queria sair de sua boca, mas mais uma vez o pânico estava ali para atrapalhá-lo. O máximo que conseguiu foi dar alguns gemidos e levar uma pancada na cabeça, provavelmente obra de algum dos outros dois pivetes.
    - Anda riquinho safado! Tá achano que nós temo a noite toda?
    Maldito linguajar de ladrõezinhos de merda. Quem dera estivesse armado naquele momento, a calçada já estaria manchada com sangue desses veados.
    Nesses momentos de terror não consegue controlar o que se passa em sua cabeça, o pensamento funciona tão rápido que pensa em mil possibilidades. Deveria correr? Gritar? Obedecer? Será que levaria um tiro? Uma facada? O que iriam fazer com ele? Por que não simplesmente levar o carro e deixá-lo ali?
    - Puta merda! Vai maldito, levanta esse rabo fodido daí! – Mais uma pancada atingiu-o na cabeça, muito mais forte do que a outra. Sentiu o sangue quente escorrer por sua nuca.
    Antes que conseguisse se levantar, dois braços surgiram por baixo de suas axilas e o ergueu do chão empurrando-o para dentro do carro, no banco traseiro. Esses putos fediam a merda, lá estaria seu carro fedendo depois dessa aventura de merda. Se sobrevivesse depois disso, jurou que iria destruir a vida desses três desgraçados.
    Ah, para que? De nada ia adiantar, provavelmente estaria morto antes do amanhecer... Ou pior...
    Não! Iria resistir a qualquer mal que tentassem. De que tinha adiantado aprender a lutar quando era adolescente se nesse momento de pânico ele não conseguia fazer nada mais além de dar alguns gemidos e pensar em milhares de coisas ao mesmo tempo?
    Foda-se tudo isso! Iria sobreviver e esses fodidos iriam pagar pelo que estavam fazendo!
    Perdido em seus pensamentos o rapaz nem percebera que o carro já estava se movimentando. Dois cagões na frente e um atrás. Agora percebia que aquele moleque segurava uma faca com a ponta encostada em direção ao seu rim.
    Maldição! Esses merdinhas não aparentavam ter sequer 20 anos de idade, aquele com a faca parecia ter uns 16! Quem sabe um movimento rápido e ele não arrancava-lhe a faca da mão e virava o jogo? Ou quem sabe tentava isso e levava um tiro do saco de merda sentado no banco da frente? De qualquer forma, melhor não arriscar, tudo o que podia fazer era pensar e ficar parado ali, como um belo peso para papel, um cagão medroso que se fodera por não conseguir arranjar uma vaga mais perto do escritório e decidir trabalhar até tarde.
    E sua família? Como reagiriam ao acordar no dia seguinte e não encontrá-lo em casa? Como reagiriam ao descobrir seu corpo abandonado em algum terreno baldio dali a três dias?
    Céus! Tinha tantas coisas para fazer, não poderia morrer ali. Tinha que sobreviver! E aquele romance que estava lendo? Será que nunca descobriria como terminava? Será que não conseguiria ver o sol nascer novamente?
    Não, não era possível que o matassem. Não iriam arriscar tan...
    - Ô seu puto! Presta atenção na merda que tu tá fazendo! Bate esse carro que nós tamo tudo fudido! – O cusão no banco de passageiro gritava com o motorista.
    Mais uma vez o rapaz fora despertado de seus pensamentos quando aquele pivete quase arrebentara o carro com o meio-fio. Prestava atenção agora no lugar onde estavam. Não conhecia aquela parte da cidade, muito deserta e com poucos prédios. Provavelmente estavam próximos da rodovia.
    Puta merda! Iam matá-lo, jogar seu corpo em algum matagal na rodovia e demorariam semanas para encontrá-lo apodrecendo e fedendo...
    - Por que? – Finalmente algo saiu de sua boca, mas saiu num sussurro tão baixo que suspeitou que nenhum dos ladrõezinhos ouvira.
    Estava enganado.
    - Que que tu tá falando ae? – Perguntou o mesmo que estava no banco de passageiro. – Fecha essa tua matraca de merda ou logo seus miolos vão pintar esse seu carrinho de puto rico! – Agora ele apontava uma arma, uma merda de pistola automática em sua direção.
    Desgraçado, de onde tirara essa arma?
    Do cu provavelmente, pensou e sem perceber deu um pequeno sorriso.
    - Ta rindo du quê? Veado de merda, gosta de pensar nesse carrinho pintado de sangue eh? Pois então se prepara! – A arma agora estava encostada em sua testa.
    Pronto. Esse era o fim. Que bela cagada tinha feito. Tanta coisa para se fazer, era ainda tão jovem e dali a alguns minutos estaria morto.
    Esperava que não doesse, ninguém saba dizer como era levar um tiro na cabeça. Será que iria sentir a dor e agonizar antes de morrer? Ou será que era algo instantâneo? Oh, não queria descobrir, queria viver e ver o sol nascer, não só esse dia, mas durante vários dias de sua vida.
    Mas para que se preocupar? Era óbvio que o pivete estava blefando, ele não puxaria o gatilho, era muito cagão para isso. Ou será que não?
    De repente sua família, amigos, trabalho, futuro e passado passavam pela sua cabeça, tudo isso em questão de segundos enquanto esperava o tiro, a pontada de dor, a morte. Mas cada segundo, cada milésimo, parecia uma eternidade.
    Esse desgraçado vai me matar ou não?
    Seus olhos estavam fechados, não havia mais sorriso em seu rosto, e provavelmente (não conseguia ter certeza), lágrimas escorriam de suas pálpebras.
    Mais segundos de pensamentos aflitos se passaram até que teve a coragem de abrir os olhos. O cagãozinho ainda segurava sua arma apontada para seus miolos, mas não atirara.
    Talvez pudesse desarmá-lo! Essa era a hora.
    Bah, mas isso não passava de um pensamento. Fugir de um tiro para levar uma facada, ia encontrar com a morte de qualquer jeito. Tudo o que podia fazer era ficar parado. Talvez rezar, torcer para que o destino ou Deus o salvasse.
    Ouviu, tudo muito rápido e muito devagar, ouviu algo e sentiu a pancada. Viu o carro surgindo do cruzamento, viu-o apenas de relance por apenas alguns segundos, viu os vidros se estilhaçando, o carro rodando, a arma voando o corpos se movimentando por culpa da física. O mundo de repente virara um borrão, poderia dizer que o tempo se paralisou, entendia e não entendia ao mesmo tempo o que estava acontecendo.
    É muito azar para uma só noite. Ou será que era sorte?
    A cabeça do motorista foi arremessada para frente, não usava cinto, colidiu com o vidro do carro. Não conseguia ver muita coisa, mas sentiu... Sentiu a pancada final e o mundo se apagou. Sobraram apenas sons. Alguns gritos, gemidos, algum líquido pingando, pequenos cacos de vidro raspando no chão e ainda caindo.
    Tudo muito confuso. Ele estava muito cansado, era melhor desligar-se, depois ficaria tudo bem... Tinha certeza disso... Então deixou-se dormir, deixou-se apagar.


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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por vreil em Ter Fev 01, 2011 12:57 pm

    UUUAAAAUUUU... dou-te um conselho: continua assim e faz um livro!!!
    vou descrever com apenas 2 palavras: ABSOLUTAMENTE FANTASTICO.
    ate eu senti a afliçao do men!!!
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    Re: Frutos da Insônia

    Mensagem por Stuart em Dom Fev 06, 2011 12:43 am

    Mais uma nessa noite sem sono:


    RAIVA


    Não agüentava mais.
    Não suportaria ser provocado mais uma vez por aqueles fodidos.
    Não suportaria subir nem mais um dia e ouvir a voz de seu chefe de merda enchendo seu saco, ou do filho-da-puta, almofadinha, puxa-saco que era seu colega de trabalho.
    Jurou que, assim que ouvisse alguma coisa saindo da boca desses arrombados, dentes estariam voando pela sala. E não seriam os seus.
    A porta do elevador se abriu. Enquanto caminhava pelo estreito corredor, sua mão se fechava com tanta força que imaginou o sangue escorrendo entre seus dedos.
    Bateu rapidamente na porta e já entrou sem esperar resposta.
    O chefe estava sentado atrás de sua mesa, absorto em alguns papéis que lia.
    - Puta que pariu! – Exclamou logo que levantou a cabeça e o enxergou. – Rapaz, ninguém nunca lhe ensinou a escrever? Este relatório está um lixo! – Gritava apontando para os papéis em sua mão – Minha sobrinha de 5 anos é capaz de fazer algo melhor do que esta porcaria!
    - Me desculpe senhor, achei...
    - Foda-se o que você achou! Só quero que você faça a porra do seu trabalho direito! Isso é pedir muito? Hã?
    - Me desculpe sen...
    - NÃO QUERO SABER DE DESCULPAS! QUERO SABER DE TRABALHO!
    - Mas senhor...
    - FECHA ESSA MATRACA! – Bateu na mesa com o punho fechado. – Faça outro relatório, e faça-o agora!
    - Mas hoje é...
    - Faça o que eu digo. – Disse o chefe ignorando-o completamente. – Agora saia de minha sala, tem uma cagada chegando e será com este relatório que limparei minha bunda. – Apontou mais uma vez para o papel em sua mão.
    - Sim senhor. – Qualquer dia mataria aquele velho...
    Saiu da sala, e enquanto caminhava de volta para o elevador, ouviu risinhos na sala ao lado de onde estava.
    Sua mãos já deveriam estar roxa pelo tanto que as apertou.
    Jesus! Nunca poderia ter uma arma, caso contrário ninguém naquele andar estaria vivo.
    Apertou o botão “DESCE” e esperou.
    Porcaria de lata velha, bem que poderia despencar quando o grande filho-da-puta estivesse descendo para seu almoço.
    Decidiu ir para o saguão do prédio. Não agüentaria voltar para sua sala e trabalhar nem mais um minuto naquele dia. Foda-se caso fosse despedido, trabalhar ali era pior do que viver no inferno. Na verdade, estariam lhe fazendo um favor caso fosse despedido.
    Atravessou o saguão e saiu para a rua movimentada. Não era nem meio-dia ainda, mas as pessoas já ocupavam as ruas assim como pequenos mosquitos voavam em torno de uma merda.
    Foi caminhando entre os corpos suados e ocupados sentindo a raiva se espalhar por todos seus membros. Não conseguia tirar de sua cabeça o terror que era aquele lugar.
    Um pensamento furioso atraía outros num ciclo interminável, piorando assim sua situação mental. Observava as pessoas nas ruas e acabava procurando por algo em cada uma delas que o deixasse furioso, fosse o modo de vestir, falar, andar... Odiava tudo naquele momento.
    Sentiu-se assustado com tanta ira.
    Até que viu uma mãe carregando seu filho, um bebê de, no máximo, três anos de idade. A mulher caminhava na sua frente, e o bebê o observava com a cabeça recostada no ombro da mãe. A criança sorria com seus pequenos dentes recentemente formados...
    Tão inocente... Tão meigo...
    De repente toda sua cólera e indignação foram embora.
    Toda sua raiva fora sugada por aquele simples sorriso.
    Percebeu então, que era isso que faltava no mundo: mais sorrisos, mais simpatia e compreensão por parte das pessoas, talvez assim o mundo fosse um lugar melhor.
    Sim, estava finalmente calmo. Achou até que poderia voltar ao trabalho e finalizar o relatório que seu chefe pedira.
    Mas não podia.
    Um rapaz, que caminhava logo ao seu lado, estava com os olhos colados na bolsa da mulher, da mãe daquele bebê (que salvara seu dia). Ele nem percebeu isso, estava concentrado demais no sorriso da criança e, quando percebeu, já era tarde.
    O homem arrancou a bolsa bruscamente dos braços da mulher, e ela, na tentativa de resistir, acabou caindo no chão, derrubando o bebê.
    Tudo aconteceu em questão de segundos, mas foi o suficiente para fazer toda raiva voltar para seu corpo, explodir por dentro dele de uma forma exasperada.
    Pôs-se a correr. Não agiu racionalmente, foi puramente por impulso. Estava sendo movido pela raiva. Iria alcançar aquele desgraçado e ele pagaria... Pagaria com dor...
    Ah! Se possuísse uma arma naquele momento...
    Definitivamente, nunca poderia comprar uma arma, não com esse sangue quente.
    Correu.
    Correu como nunca.
    O assaltante nem percebeu que estava sendo seguido. Até que uma mão agarrou o ombro dele, agarrou com força e jogou-o para trás. Ele caiu de costas no chão, mas ainda segurava a bolsa da mulher.
    Primeiro um chute (e provavelmente uma costela quebrada).
    Logo depois seu joelho já esmagava os pulmões do ladrãozinho de merda enquanto seus punhos acertavam seu maxilar uma, duas, três... Perdera a conta, mas o rosto ali não era mais o do assaltante, não era mais um rosto reconhecível. Era apenas uma massa desfigurada manchada de sangue.
    - Sooo.. oo.. co-o.. – Era o que o ladrão tentava dizer, mas seu maxilar já estava destruído, assim como seu nariz e o resto de seu rosto inteiro. Sua voz era pastosa e fraca.
    Ignorando completamente o suposto pedido de socorro do rapaz, continuou esmurrando-o. Naquele momento, queria vê-lo morto. Queria descontar toda sua raiva naquele maldito desgraçado. Cada soco desferido enxergava um rosto diferente, começando por seu chefe.
    Não ia parar... Não! Aquele desgraçado precisava sentir dor, muita dor. Ele tinha que aprender sua lição, e ali, seus punhos eram os justiceiros que provavelmente, muitas outras pessoas já precisaram algum dia.
    Foi interrompido finalmente por alguém.
    Seguraram seus braços e o afastaram do corpo no meio da rua. O assaltante já estava desmaiado (ou morto), e a calçada, assim como suas mãos, estavam manchadas de sangue. Um círculo de pessoas se abria ao seu redor e todas o observavam com rostos horrorizados.
    Ah... Estava cansado. Mas a justiça fora feita!
    Não poderia estar mais enganado.
    A mulher que fora roubada se aproximou do tumulto. O bebê estava em seu colo, chorando, e ela observou... Primeiro viu o assaltante sendo socorrido. Depois olhou para ele... Olhos horrorizados...
    Nada de agradecimentos. Nada de alívio. Nada de felicidade...
    - MONSTRO! – Foi a palavra que saiu da boca dela, e então começou a chorar.
    Queria responder, queria dizer algo em sua defesa, queria dizer que a justiça estava feita e que aquele homem merecia ter seu sangue espalhado por suas mãos, como estava agora.
    Mas não conseguiu.
    Não conseguiu, pois sabia que não era verdade. Sabia que aquilo não era justiça. Provavelmente ele era mesmo um monstro.
    E agora...
    Agora já estava arrependido.
    Agora sabia que não lhe cabia o direito de julgar ou punir.
    Agora sabia que destruíra sua vida naquele momento.
    Agora provavelmente seria preso por essa brutalidade desnecessária.
    E isso... Isso sim era justiça.


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    Re: Frutos da Insônia

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