o tempo

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    Anilyan
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    o tempo

    Mensagem por Anilyan em Seg Maio 09, 2011 5:44 pm

    Ok, estou a escrever uma historia mas so vou postar tipo um prologo, ate pq mnh mae n deixa por td na net. mas podem ter uma ideia de como começa e o rumo das coisas. anilyan sou eu e nao sou. desculpem-me quaisqueres erros, ando no 7º ano, e comentem. a trilogia(titulos)vao ser: o tempo, o nevoeiro, o espelho

    Memórias Presentes
    Dois vultos caminhavam na penumbra. Ambos envergavam longas túnicas com capuz, negras como breu. Cobriam o rosto com este, pois se não o fizessem, até na mais cerrada escuridão eram fáceis de identificar. Eram ambas mulheres, e expressavam determinação: lábios apertados, maxilares cerrados, sobrancelhas franzidas, os olhos muito abertos e atentos a qualquer vestígio de movimento.
    O seu semblante, enquanto caminhavam, era majestoso, mais majestoso que o de uma rainha, porém não caminhavam devagar, pelo contrário, eram mais velozes que qualquer corredor que se pudesse imaginar. A altura, e provavelmente a idade, não tinham comparação. A mais alta cerca de meio metro não expressava qualquer medo; Por trás do seu olhar profundo habitava uma calma divina e uma sabedoria sem limites.
    Ela era daquelas mulheres que pareciam jovens por fora, mas as experiências de vida e o olhar provavam anos de existência. A outra era mesmo jovem; Media cerca de um metro e meio, pouco mais, e no seu olhar podia ler-se “Chegou o dia”. Demonstrava relutância e dor, mas apesar de tudo o seu andar adquiria novo vigor a cada passo. Apesar da mulher mais velha ter passado pelo que a outra passará agora, nunca passara pelo que esta já passou. Estava embrenhada em pensamentos:
    Quem nos visse agora julgaria que nos tínhamos aliado ao inimigo. Mantos negros, rostos encapuçados… É um facto conhecido que estas medidas são extremamente importantes se quisermos preservar uma réstia de segurança, mas ainda assim, de que vale?! O luar persegue-nos a toda a hora, por mais que a Lorelay puxe o capuz para a frente. Só está a ensombrar as suas feições, quem quer que olhe vai reconhecê-la pela pele macia como a de um bebé. Pelo menos podia admitir que só está a erguer o queixo por uma questão de dignidade, não é para prestar atenção, que também não valeria de nada. Que inveja…Não quero ser mais velha que isto nem sei se vou lá chegar, mas ela já canaliza o poder da fonte verdadeira há tanto tempo!… Como é que o contacto com o poder a consegue deixar tão bela…? Mesmo que estivesse coberta de trapos pareceria nobre!
    Sinto-me desajeitada. Não vejo bem, tenho os lábios gretados, o meu cabelo corta o ar como chicotadas, e os dedos da mão estão brancos da força que faço para não deixar o manto esvoaçar! E sinto-me tensa, mas isso deve-se às memórias que me permitiram reviver, através de um método exotérico. Assim lhes chamam os da minha raça, porém, eu não. Eu uso um nome muito mais belo, muito mais simples e elaborado ao mesmo tempo, muito mais esclarecedor: Chamo-lhe magia; A minha história corre à volta dessa palavra, que tanto me seduziu.
    Há várias formas de fazer regressão ao passado: Uma, podemos escolher voltar atrás no tempo e alterar os nossos actos, conscientes de que ao escolher isso mudaria também o nosso futuro. Podemos reviver o passado inconscientes, e conscientemente, que foi a opção que escolhi. Que nojo! É frustrante saber que não há como as ver a todas. E estúpido ficar arrependida pela decisão tomada. Mas eu estou.
    É uma pena as pessoas terem medo dos buracos negros, pois do outro lado emergiriam numa maré de luz. É por isso que são escuros, para que possam ser iluminados. Agora já não me admiro de ser capaz de ficar horas a olhar para as estrelassem nunca me cansar. Eu era a criadora e resplandecia no seu interior! Estava no centro do labirinto dos sonhos, conhecido por Tell’aran’riod na Língua antiga ou mundo invisível. Não é exactamente uma das realidades paralelas, muito faladas nos livros de fantasia, mas não está longe, não como referência. Agora, se me pedirem para descrever…É um labirinto, como eu já disse, mas não se parece com nenhum. As paredes são invisíveis e não fazem nenhum som se nos mandarmos contra elas. Sentem-se não com o tacto, mas com a alma. Não tem início nem fim, e todas as paredes dão a um beco sem saída. No fim de cada corredor, há uma porta, uma passagem, que nos leva até aos nossos sonhos. Quando um ser nasce, surge outro corredor e outro portal, e quando morre, estes somem-se no ar, a verdadeira imagem de poeira de estrelas a desmaterializar-se. A cada ser corresponde uma porta, e nunca a mesma porta. É por isso que nem sempre sonhamos com outras pessoas. Para tal acontecer, ou eles ou nós temos de avançar os muros do labirinto e entrar noutra porta, o que não é nem seguro nem sensato, dado que até os nossos caminhos nos são vedados por respeito, e não sabemos o que esperar. Só sabemos os caminhos inconscientemente, portanto, essas “aventuras” tanto podem acabar em sonhos como em pesadelos. Eu estava no centro.
    Aguardava o dia em que chegaria a oportunidade de deixar aquele lugar monótono. Sofria com as dores dos seres que criara e era feliz quando assim se sentiam. Só lamentava a existência de certos seres, como os humanos. Lamentava tê-los criado. Só perturbavam o equilíbrio, eram perversos, e na maioria, curtas vidas sem uma meta, inteiramente cegos. Queria deixar aquele lugar. Queria sentir o que não podia, o que todas as criaturas sentiam. O Passado e O Futuro para mim não existiam, pois quem pensava no passado ou tentasse adivinhar o que ainda vinha, acabava por não viver o Presente. O Nunca e o Sempre são o Mesmo e um Todo, eu não era Nada, mas era Tudo.

    Esse dia chegou. Não o dia em que abandonaria tudo aquilo, que viria muito mais tarde, mas o dia em que conheci o ser que mudaria a minha vida, a meu pedido. Ela era uma fada e o seu nome era Traluar Livreyes. O cabelo era negro como a noite e os olhos da mesma cor, e era muito pálida. Era a embaixatriz da rainha Mélofor. Era a única criatura sã de corpo e mente que arriscou avançar os muros do labirinto e chegar ao centro. E, apesar de nenhuma de nós o admitir, tornamo-nos amigas.
    Eu ensinei-lhe tudo o que sabia e transmiti os meus conhecimentos, como a diferença entre nascer, viver, reviver, sobreviver e morrer. Nascer era quando uma alma decidia adoptar um corpo e esse ser abria os olhos para a vida, que é o período de tempo em que essa alma o habita. Quando se farta daquele corpo, deixa-o, e esse ser morre. Reviver é fazer a regressão ao passado, que pode ser feito das 3 maneiras de que já falei. E sobreviver não é permanecer vivo depois de um acidente ou assim, a nossa alma é que tem. Tem de querer outro corpo, outra vida. Passaram-se anos, e aquela rotina tornara-se enfadonha. Queria compreender melhor os outros seres. Queria sentir como eles, ser como eles, em todos os aspectos. Foi o que disse a Traluar. E após sete noites, ela chegou, vestida com uma túnica azul, com pérolas pendendo no cabelo. Ao vê-la assim, não tive qualquer dúvida de que queria ter um corpo material. Nenhuma. Voava até ao centro, com uma expressão solene. Tentei, mas não consegui interpretar o seu rosto. Não sabia o que esperar. Nem valia a pena tentar.
    - Anilyan – disse ela, fazendo uma vénia até ao chão.
    - Ergue-te, Traluar. Sabes que a cortesia não é necessária.
    Lembro-me que, da primeira vez que ouvi a minha voz na outra vida, fiquei espantada. Era suave, forte, sábia e melodiosa, parecendo água de um riacho a correr. Era bela.
    - Sei, de facto. Ainda assim, espero não ter chegado demasiado tarde.
    - O Tempo Serve, mas não Existe. Diz-me: conseguiste?
    - Sim. A minha rainha vai dar à luz duas gémeas, cujas almas ainda não assentaram. Prevemos que uma, cuja alma está quase definida, terá cabelos loiros como um sol, olhos azuis como o céu e faces rosadas. A outra é muito branca, e o aspecto mudará ao longo dos anos. Começará quase ruiva, depois será russa, loira, de cabelo dourado, cor-de-avelã, e castanho, que continuará a escurecer até ficar quase negro. Os olhos serão castanhos também. Se quiser optar por ficar com esse corpo, será encantadora e …
    - Por favor, eu não estou interessada no aspecto. Não há problemas?
    - Apenas um, mas é importante. Se morrer num mundo que não seja aquele em que nasceu, a sua alma voltará para aqui e sentirá a dor de todos os universos a destruírem-se, todos os seres a morrer juntamente com o corpo da sua criadora.
    - Ou seja, eu.
    - Sim.
    - Não tem importância. Eu quero ir.
    - Então, irá.
    Nunca mais pedirei isso. Não, para me arrepender assim. Eu sou Anilyan!!! SOU Anilyan e não permitirei que me despojem de tudo o que amo em segundos só por ser a única capaz de derrotar o ser que me transferiu para a Terra à nascença, que me embrenhou no esquecimento e ocultou o ramo da magia que me pertencia de mim! Mas eu encontrei-o. E se terei de abdicar das minhas asas para prosseguir com a aprendizagem, será para me vingar. Sim… Fá-lo-ei.
    Essa era a palavra que ecoava na sua mente desde que soubera da notícia. Só quem escolhia abdicar das asas podia, conseguiria, prosseguir com a aprendizagem. E a sua ignorância reflectira-se no último combate. Apenas “afugentara” as Trevas, não as derrotara. O seu líder chamava-se Radr’omr’arnn, mas todos lhe chamavam de “Morte”. Por razões óbvias. E ela teria de o derrotar; Desistir de voar;… Desistir das asas. Mentalmente, Anilyan reviveu as longas semanas em que aguardara ansiosamente que elas nascessem. Demoraram meses, quase um ano até ficarem como são, desiguais, verde-água semi-transparentes, veias e nervuras cor de ouro líquido, esfarrapadas… Nas pontas de baixo adquirem vários matizes, enquanto que nas de cima parecem que foram mergulhadas num arco-íris, desde as cores mais vivas e atractivas, às berrantes ou até às mais subtis.
    No início não passavam de asinhas estúpidas, divididas em 4 partes, desequilibradas e com buracos. Pouco depois, as de baixo uniram-se às de cima, e tal foi causa de espanto e admiração, visto que esse era um facto raro. Aquilo com que ninguém contava era que o par se fundisse num só. Desde esse momento receberam melhorias notáveis, como leveza e agilidade. Mas as asas não aparecem e desaparecem quando se quer. A partir do momento em que nascem, ficam lá até que as queiramos cortar. E isso dói, assim como doeram a nascer. Primeiro começaram a formar montinhos nas costas, ainda que estes sejam invisíveis para humanos. Crescem, vão ganhando forma e veias, e assim sendo, sangue. São como qualquer outro membro, tão sólidos como um. Todas as fadas devem ter cuidado para que as asas não embatam contra ninguém, e ao fazer tal, aprendem a dominá-las de modo a conseguirem voar quando chegar a altura. Três semanas depois, elas perdem a consistência, tornando-se parte do ar, atravessando paredes, fundindo-se no pó. Até revelarem a sua verdadeira forma podem demorar anos, décadas, ou não pararem sequer de mudar.
    A maior parte das fadas prefere abdicar dos rituais que lhes são ocultos do que das asas. E eu dou-lhes razão: arrancar-mas será como amputar-me um membro, ou pior… será como arrancar-me o coração, desaparecendo com ele as razões que tinha para viver… O problema é que não tenho escolha nem nenhum espaço de manobra dentro deste mesmo caminho.
    Um arrepio percorria-lhe o corpo de cada vez que pressionava os seus pés descalços contra as lajes frias, enquanto relembrava um poema que lera num livro:
    Quem tem escolha, não precisa escolher,
    nós que não temos, escolher devemos ,
    não podemos amar se não o que perdemos,
    o que lá vai, lá vai, e não pode volver.

    Já se avistavam as cúpulas do castelo. Este erguia-se, belo e imponente, e era constituído por torres esguias que tocavam os céus, salas e corredores, salões, escritórios, saletas e mais divisões. Um dos corredores, aquele a que eram confinadas as aprendizas, era somente constituído por quartos, mas isso não fazia dele menos digno de admiração. Só os quartos e as salas privadas tinham paredes pintadas de branco, pois todas as restantes eram feitas de cristal, permitindo ver o que continha o interior. Os amplos jardins estavam sarapintados com flores de todos os tipos, algumas saídas da imaginação de alguém capaz de controlar fluxos de Terra, Água e Ar. Só os pesados portões de Bronze com batentes de prata ou ouro e as pontes levadiças com padrões intrincados e fluídos fariam corar qualquer nobre desaparecido do nosso mundo ou mesmo um deste. Quando o sol batia no castelo, reflectiam-se no chão milhares de pequeninos arco-íris mas, mesmo sem tal, o cenário era digno de um conto de fadas. O mais estranho é que, visto de determinada perspectiva, tal poderia corresponder à verdade.
    Não era, sem dúvida, um castelo normal; Para além de todos os factos já referidos, era um misto entre palácio e fortaleza. O “lado do cristal” era apenas isso, um lado. Do outro havia um fortaleza que se fundia a meio do castelo, como que por magia, o que, pensando bem, era muito provavelmente uma realidade. Em vez de o cristal terminar repentinamente e ceder de imediato lugar à pedra, este ia ficando mais espesso, cinzento, castanho, e ganhava certas saliências que terminavam em pedra.
    Eram o mesmo local e não era: O lado do cristal era somente feminino, para raparigas que cedo podiam exercer o seu dom de canalizar, e deviam aprendê-lo antes que essa capacidade as consumisse. Nunca haviam raparigas menores de 6 anos, e mesmo dessas não haviam mais de duas. Hensel qualquer coisa e Anita tal. Anilyan lembrava-se bem de quando vira as rapariguinhas, tão novas que mal sabiam escrever ou ler e ainda assim a serem obrigadas a acompanhar as outras. Haviam regras, mas não eram difíceis de cumprir, Anilyan sabia-o por experiência própria: O medo de ser fulminada com algo criado por si evitava que praticasse os seus dons sem a supervisão de uma professora.
    Passara no palácio um bom período do sua vida, dos sete aos dez anos. As professoras eram muito exigentes durante as aulas, mas fora destas, quase que as mimavam, durante a noite, claro, pois era esse o período em que o tempo parava na Terra. Do outro lado, dizia-se, haviam rapazes e raparigas, todos eles entre dez e dezoito anos e não mais que um punhado de cada idade. Só vira dois rapazes de lá, um de quinze e outro de dezoito e ambos pareciam julgar a escola muito puxada. Agora, Anilyan sabia que era verdade: Era lá que viveria. Era lá que estudaria. Era para lá que ia.
    Anilyan sorriu com desdém enquanto contemplava o castelo, caminhando pelo caminho que sabia agora decor. Para quê caminhar, quando se podia voar? Deixa a capa pesada tombar no chão, fitando Lorelay com um olhar desafiador. Não adianta censurar-me - avisavam os seus olhos. E, como se o pensamento tivesse chegado até Lorelay, ela consentiu. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, Anilyan levanta voo, pairando acima da densa floresta enquanto executava milhares de piruetas e fazia floreados. Exercícios simples, porém que requeriam mais graça que a do mais dotado bailarino. É possuída por um urgente sentimento de fuga. Fugir. Fugir ao meu destino. Sem olhar para traz, lança-se num voo tresloucado em direcção à lua. Era capaz de passar horas a fazer o mesmo. Sem se cansar. Sem se fartar. Sem se arrepender. Sem se deter. Apenas voar.
    A lua cantava para ela e as estrelas prometiam-lhe abrigo. A única coisa que a deteve foi não ter a consciência limpa. Bolas! Que se dane! Ainda assim, parou. Parou e fixou com o seu olhar a lua. Qual era a melhor palavra para descrevê-la? Existe alguma palavra capaz de significar bela, pura e poderosa? Que palavra transmitia subtileza, sabedoria e eternidade? Que palavra representa magia, que não lua? Independentemente da língua, era isso mesmo. A lua. E foi a lua, ou talvez o seu destino, que a levou a recuar e emergir nele.
    É aqui – Pensou Anilyan, olhando a triste e lisa porta que abria para o Salão do Trono, onde seria separada para sempre daquilo que amava. Parecia uma coincidência tal ser feito ali, pois a sua alma estava pesada e aquela porta era feita, segundo se acreditava, de almas. Tinha uma aparência nublada, que mudava constantemente de cor ou forma. Graças a uma frase que as almas mantinham na porta, contava-se que eram almas tristes dos sucessores ao trono, que nunca o chegaram a obter e apesar disso mandavam muito mais que quem o possuísse, se não na própria vida. Dizia:
    Uma alma em torvelinho,
    Um sonho distante de aqui,
    Um complicado padrão,
    Essa matéria, que aprendi.
    A vida é um tecido fininho,
    tecido com almas como se com linho,
    na roda jaz um intricado padrão,
    que os sucessores controlarão.
    Aes Sedai é o seu apelido,
    puxam os cordéis, formam o não definido,
    Quando nasce outra alma e se intromete no padrão,
    é para destroçar mais um coração.
    Frio, desolado e digno. Era estranho, pois ela nunca vira aquilo dessa maneira, nem quando havia estudado a fundação do palácio. Até a uma semana atrás, era uma menininha inocente, bondosa, educada, estudiosa, obediente e toda sorrisos. Mas quando soube que teria de tomar partido na batalha (felizmente, não directamente), ficara aterrorizada. Abrem-se as portas e ela caminha, lentamente e de queixo erguido, sem tirar os olhos da parede à sua frente até chegar ao fim. Até chegar O fim. Olha a rainha Meridian nos olhos, esta retribuindo com uma firmeza implacável. Era bela: Cabelos cor-de-caramelo desciam-lhe até à cintura, os olhos eram rasgados e penetrantes como os de um gato e de um verde profundo. Os lábios carnudos sobressaíam no queixo angular com a habitual cor-de-cereja. Era branca, alta e esbelta. A única coisa que distorcia a sua visão era um nariz aquilino.
    Há anos que desempenhava o cargo de rainha. Era óbvio para Anilyan que nunca lhe daria ouvidos, ou pelo menos tal não seria notado. Mas como todas as pessoas, parte de si prestava atenção para mais tarde ponderar no que ouvira. Fez uma vénia até o seu rosto quase tocar o chão, ergueu-se e, falando num tom respeitoso, proferiu:
    – Não pretendo ofender-vos, majestade, nem questionar a vossa liderança, mas como pode ser bondosa para com o seu povo sendo fria como o gelo, dura como o aço e cruel como um animal ou, pelo menos, suficientemente má para amputar as asas e sacrificar o coração de uma criança?
    Da sua filha. Descobrira à pouco que era filha da rainha. Apesar de não ter feito toda a regressão, ela nascera neste mundo, mas haviam-lhe contado que algo correra mal e que nascera novamente na Terra. Tal como previra, a frase fora insolente que chegue para obrigar a rainha a responder.
    – Quando ascendi ao trono era, como agora, uma mulher de coração puro e consciência tranquila. Nada temo que não o futuro dos Evarínya Vrangr- Referia-se ao povo – Pois a morte nada mais é que o sono eterno e alguém tem de fazer as tarefas mais asquerosas.
    – Não duvido de suas palavras, majestade, mas será o suficiente para provar que a sua consciência está de facto limpa?
    - Certamente não te atreverás a pedir para Ver a minha mente.
    Acabou de lançar um desafio sobre o qual nem ponderarei.
    – Nunca o tencionei, majestade-Respondeu Anilyan. Era verdade. -Apenas me pergunto como é capaz de estar tranquila.
    – Nunca fui sujeita ao choque de perder as asas, assim sendo, a minha compreensão que tenho pela tua dor é somente parcial, não me podendo permitir perder tempo a imaginar castigos para uma dor que infligi sem entender. E mesmo que tivesse consciência daquilo por que passarás, não é um sacrifício importante para o futuro do Estrelas Errantes suficiente para me poupar? Não concordas?
    – Crê mesmo que se não o fizesse eu estaria aqui?! – Atira Anilyan. Fora apenas um murmúrio, mas foi pior que se tivesse gritado. A frase saíra-lhe de repente, mas ao ouvir o seu eco, tomou consciência da verdade nua e crua. Sentiu pena de si. As lágrimas afloraram-lhe aos olhos, picando-os, mas ela limpou-os com vigor. Não era agora que começaria a fraquejar. Voltou-se, ajoelhou-se e murmurou: - Estou pronta.
    Não lhe foi dado tempo para decidir se queria ou não. O destino queria, e isso bastava. As asas tombaram no chão como se não fossem nada, os cotos foram abertos e começaram a sangrar e quando Anilyan levou os dedos ao lugar onde estariam as suas asas, agora vazio, e sentiu o sangue quente, apercebeu-se de que a verdade lhe havia sido distorcida. Era muito mais horrível do que pensara. Em vez de não deixar nada, deixava algo: A sensação do vazio. Desmaiou.

    Tudo estava escuro. Mesmo de olhos abertos, nada via. Fechei-os, e aguardei. Não saberia dizer quanto tempo, se segundos ou dias, mas a mim pareceram-me intermináveis horas, que se sucediam a outras. Até que, de repente, uma luz atravessou-me as pálpebras e atingiu-me os olhos sem mos ferir, e eu abri-os, na expectativa. Eu tinha um corpo e era luz. Era A luz. A única luz numa imensidão de Trevas. Era… como ser designada exactamente? Um corpo luminoso, não só por o meu corpo emitir luz mas porque brilhava com a intensidade das estrelas, num tom branco-azulado. Estava despida, e a minha pele era como a neve banhada pelo luar. Levantei-me, hesitante. Era mais fácil do que julgava. Já de pé, reparei no cabelo prateado que me roçava as cochas, caindo em cascata. Os meus dedos não tinham fim, prolongando-se no infinito. Na plena escuridão, dois pares de olhos observavam-me. Não tardei a escutar os seus sons, o seu sibilar. Quando dei por mim, estava agachada, perscrutando em vão a escuridão em redor. Comecei a arfar…

    Ao tomar consciência do local onde estava, apercebeu-se de que estava voltada para cima, fitando a cúpula sem expressão enquanto a visão estava enevoada e turba. Andava tudo à roda. Os olhos estavam rasados de lágrimas, mas desta vez não se esforçou por limpá-los. Estava feito. Foi rápido - Concluiu com azedume - Agora devo concluir também a cerimónia. Aproximou-se do alinhamento dos três arcos. Estavam todos enfeitiçados, mas ela desconhecia o que faziam. Sabia apenas que devia atravessá-los. Havia uma mulher ao pé de cada um deles, segurando uma taça, a primeira com pó, a segunda com vento, a terceira com água.
    A primeira mulher tinha uns cabelos da cor do fogo rebeldes e que lhe davam pelos ombros. Era muito pálida, alta, cruel e arrogante. Tinha uns olhos pequeninos que não se desviaram da taça que tinha entre as mãos. Assim que Anilyan se aproximou e despojou das vestes ensanguentadas, esta deitou o conteúdo da taça em cima de Anilyan. - Estás limpa de qualquer pecado que possas cometer ou que cometam contra ti. Apesar de tudo, deves ajudar aqueles que não podem escolher o seu destino se quiseres permanecer sã de espírito. Que a Paz habite o teu coração. O olhar alternou entre ela e o portal e acenou a Anilyan para que prosseguisse.
    Depois de atravessar o arco, Anilyan sente a pele em brasa. Era como se tivesse atravessado as chamas de uma fornalha, altas, escaldantes, excessivas. Mas, ao mesmo tempo, essa dor parecia distante, como se pertencesse a outrem ou fosse uma ferida antiga. Como se houvesse outra Anilyan num outro mundo, de quem ela tinha consciência, que fora queimada e ambas partilhavam a dor, de modo a que uma delas pudesse ignorá-la.
    Soltou um gemido involuntário, mas foi em frente. Perto do segundo arco estava uma mulher com cabelos pela cintura e encaracolados, de um loiro platinado, com umas grandes pestanas a emoldurar os olhos azuis. Vestia de seda negra, como as duas outras mulheres. Parecia distante, aluada e abatida, e quando a fitou os olhos pareciam vidrados. Proferiu:
    - De cada vez que desesperares e não souberes o que fazer, pára, e vai em frente. Só não desistas, e não te esqueças de que mesmo a pior realidade acaba, de madrugada, como o pior pesadelo. Que a luz te ilumine.
    Inverteu a taça de modo que o ar varresse o pó que cobria Anilyan, que se apressou a penetrar no arco. Do outro lado, mal se apercebeu da película fresca que se moldava ao corpo, tal era o alívio que esta lhe transmitia. Apressou por isso o passo em direcção à terceira mulher, esguia e de cabelos negros sedosos que rasavam os tornozelos.
    - Os astros são muitas vezes a única companhia de uma mulher, mas chegam. Eles guiar-te-ão. Que as estrelas te protejam – Lançou-lhe um grande sorriso, inverteu a taça com água e indicou o arco com leve floreado da mão. E Anilyan atravessou.
    Envergava um vestido que começava branco, à altura dos ombros e do peito, e ia escurecendo enquanto descia, chegando a preto. Uns fios da cor do ouro líquido ganhavam vida ao longo do traje, descrevendo curvas ou espirais fluídas. Calçava uns escarpins cinzentos de veludo decorados, tal como o vestido, com um símbolo: um angreal no centro de um diadema, ambos de ouro. Na cabeça tinha uma flor feita de prata, mas que estava viva, pois respirava. O coração pulsava como não o fazia à muito.
    Apetecia-lhe estender os braços e dançar. Não podia, claro, mas sentia-se de novo tão mágica que nem isso a aborrecia. Ainda não estava refeita do choque, mas sentia-se bem consigo mesma.
    Dirigiu-se a Lorelay, que se havia entretanto livrado do capuz. O cabelo, preso num carrapito, podia ter já adquirido tons cinza, mas estava longe de terminar os seus dias como adulta, primeiro por ser feiticeira, depois por ser meia-elfa. Por esse motivo, aparentava ser jovem e tinha orelhas um tanto pontiagudas, em que usava três argolas. Os olhos eram vermelhos-claro o que, tendo em conta a parecença com o sangue, eram extremamente belos. Usava, como de costume, um misto de armadura e vestido. Na verdade, este seria um vestido, não fossem as placas metálicas nos ombros, cotovelos e joelhos.
    Tinha um dos seus raros sorrisos estampados no rosto. Ficava com um ar ainda mais angelical. Perguntou a Anilyan:
    - Então? Pronta?
    - Para o que der e vier – Respondeu-lhe.
    Imediatamente o rosto de Lorelay endureceu, como um castelo de cartas que ruíra.
    - Bom, nesse caso… Creio que tens de te despedir de umas amigas. Mudarás de escola, e não só aqui, não é?
    Oh, é cruel – Era como se uma mão de ferro me agarrasse o coração e o puxasse, com a intenção de o arrancar do peito – Era por isto que durante a festa de fim do ano todas elas haviam chorado? Por saberem algo que eu desconhecia? Contava que nos voltássemos a ver muitas mais vezes, mas… se não vamos… Farei novas amigas, claro. Porque será que não as verei? O que vão fazer, porquê?! Oh, luz, porquê?
    - Que farão elas? – Interrogou Anilyan.
    - Não lhes apetece viver muito mais neste mundo, e nós também não quereríamos que elas ficassem. A Terra prende-as demasiado. Serão felizes levando uma vida humana, recordando apenas este mundo se quiserem, talvez como um sonho distante.
    Anilyan baixou o olhar. Não era capaz de imaginar como seria viver na Terra depois de saber da existência deste mundo e tendo apenas recordações. As recordações são demasiado fracas. Saber que as suas amigas seguiriam por esse caminho de livre vontade era quase tão mau como o facto de o fazerem.
    Quando Lorelay começou a andar, Anilyan seguiu-a sem levantar mais questões. Foram dar a um jardim privado às novatas. Agora, Anilyan já não o era e elas tinham o direito de lá entrar, uma vez que estavam prestes a deixar este mundo. Elas. A Daniela Alexandra, a Francisca, a Carla, a Andreia, a Bárbara, até a Jéssica lá estava.
    Enquanto via a maior parte delas pela última vez, falava-lhes. Algumas diziam piadinhas, lamentavam-se, calavam-se, tímidas, ou desatavam num choro convulsivo. Com a Francisca, foi diferente.
    - Custa-me acreditar que tu também optaste por este caminho – Comentou Anilyan, com ar desinteressado.
    - Sabes, já somos duas. Mas foi isto que escolhi. Oh, Any! Quero dizer-te tanto que não sei por onde começar!...
    - Pois, mas não digas. Tornaria tudo mais difícil que aquilo que já é.
    - E é-o muito.
    Afastou-se. Terminara assim. Nada Anilyan lhe perguntou. Tudo sabia. Foram transportadas através de um remoinho para as suas casas. Lá, fechou-se, às escuras, no quarto da sua mãe, algo que ninguém estranhou visto ter-se tornado um hábito na última semana.
    Precisava de pensar.
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    Taynara
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    Re: o tempo

    Mensagem por Taynara em Qui Maio 19, 2011 9:49 pm

    Atrevo-me a falar, mas se não concordar por favor diga. Li sua história e achei muito interessante. Queria saber se tudo isso é um prólogo mesmo, ou você meio que fez um resumo mais longo para que quem lesse pudesse entender como funciona sua história. Eu também escrevo e justamente por isso é que pergunto quais foram suas influências e se você toma cuidado com isso. A respeito do texto acho que deve tomar cuidado que as pessoas entendem exatamente aquilo que pretendeu dizer, porque em alguns momentos eu fiquei meio aerea sobre as ideias que teve para o enredo. Talvez não tenha percebido e eu diria que isso não é uma falha sua, é que o fato de estar inserida na história e principalmente por montar um enredo que julgo ter certa complexidade por você fazer uma trilogia, pode fazer com que não acerte muito no tipo de argumento que está usando. Por exemplo, eu fiquei sem saber direito se havia entendido todas as explicações que deu, se cheguei a desvendar o enredo certo. Como escrevo essas são qustões que eu me preocupo e por isso talvez você também tenha esse mesmo tipo de sentimento. De qualquer forma achei muito legal sua iniciativa e espero que tenha sucesso. E não ache que por ser nova sua história sai perdendo, ao contrário, isso lhe engrandece mais, porque é perceptível que sua criatividade é muito ativa.
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    Re: o tempo

    Mensagem por anairam em Sab Maio 21, 2011 3:49 pm

    ainda so começei a ler mas...uauu.escreves muito bem mesmo para alguem do 7 º ano..!*0*
    vou guardar a pagina para ler Wink
    parabens e continua ( o pouco que li pareceu-me dar uma excelente historia. E original! sem plagios)
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    Re: o tempo

    Mensagem por Anilyan em Dom Jul 03, 2011 9:28 am

    Obrigado! Surprised Não é um resumo, é mesmo um prólogo, pelo que ainda não é muito claro. Um resumo (mesmo resumido) da série pode ser algo tipo...:
    Desde os 7 anos que Anilyan pertencia à magia. Era sua servo mesmo que todos - incluindo ela - pensassem o contrário. Ainda que na Terra os problemas comecem apenas aos 11 anos, no seu mundo o tempo passa de maneira diferente e ela tem 13. Está decidida e destinada a enfrentar Morte. É a única que pode fazê-lo, pois foi a criadora e tem o direito de destruir. Mas para isso tem de ficar mais forte, e em menos tempo do que seria normal. Enquanto que em Adurna (aparte: é o nome do seu mundo) se sente capaz de tudo, na Terra fica cada vez mais fraca. Está lentamente a endoidecer, e a sua realidade a desmoronar-se. No final, terá de dar muito mais de si mesma. E se no início não se apercebe, depois é realmente levada a ponderar...

    Afinal não é bem um resumo. Seria mais um texto para por na contracapa de um livro. Pronto, vou dizer que no final ela terá de desistir da realidade que mais preza na vida. Já agora, anda numa escola de magia, mas não tem nada a ver com Harry Potter. E tem uma gémea.

    E Não digo mais nada. Very Happy
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    Re: o tempo

    Mensagem por Taynara em Sex Ago 12, 2011 12:24 pm

    Anilan existe algum site seu que você poste algo desse livro? Ou de outros trabalhos seus? Disponibiliza pra gente.
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    Re: o tempo

    Mensagem por Anilyan em Sab Ago 13, 2011 8:01 am

    Não, lamento. É que a minha mãe não me deixa ir colocando na net, e realmente é melhor, uma vez que quero mesmo publicar e tal. Mas comecei a escrever uma fanfic, uma continuação a Alice no país das maravilhas, já vou postar o link da página e aproveitem inscrevam-se nesse fórum, que é novo (não é meu) e está a precisar de membros.

    http://fanficmania-portugal.ativo-forum.com/post
    Hum... mas se querem algo meu, vão a "Jogos" que eu postei lá um RPG de Alagaesia, uma vez que o já anunciado estava bem inativo. Criei há 2 dias. E podem ver desenhos que faço em "Fanart", em "minha Arya", apesar de não ter só desenhos da Arya.

    Não tenho lá muitos trabalhos, não no computador. Mas também, só tenho 13 anos, e dedico mais tempo à arte e leitura do que a escrita. Ainda assim, obrigada por se interessarem.

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    Re: o tempo

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